
Marquee Moon, faixa título do primeiro álbum do Television, de 1977 é tida pela lista de 2005 da Rolling Stone como a 372ª melhor música de todos os tempos (coisa que na minha humilde opinião deveria figurar pelo menos entre as 15 melhores).
A música é rica nos detalhes e passa dos 10 minutos, o que não é nada tradicional se tratando de um single, mas chegou a atingir o Top 30 na Inglaterra em seu lançamento. Dizem as más línguas, que Richard Hell, o primeiro baixista, foi forçado a deixar a banda já que não tinha a habilidade necessária para tocá-la, sendo então substituído por Fred Smith (não, não é aquele do MC5, ex-marido da Patti Smith, esse é o Fred “Sonic” Smith, confundo sempre) ou talvez tenha sido apenas uma desculpa de Tom Verlaine para expulsá-lo, considerando que a relação deles na época já não era das melhores.
Depois de ouví-la por pelo menos 50 vezes no último mês (50 seria exagero se eu não a usasse como despertador), Marquee Moon me proporcionou inúmeras sensações, sem mencionar o fato de que a cada execução parece uma música diferente.
São 10:40 minutos, iniciados pela guitarra ritmada de Richard Lloyd, seguida por um acorde único de Tom Verlaine na segunda guitarra, depois o baixo de Fred Smith e a bateria de Billy Ficca. I remember/how the darkness doubled/I recall lightning struck itself/I was listening/listening to the rain/I was hearing/hearing something else e é simplesmente impossível não se sentir um personagem de On The Road de Jack Kerouac atravessando o país de carro na década de 40, adentrando as mais remotas estradas com o simples objetivo de fugir do Inverno rigoroso do Leste em busca do calor tanto humano, quanto climático do acolhedor Oeste, sem ter a certeza do que esperar, quem encontrar. Arranjando bicos a cada parada somente para conseguir dinheiro suficiente para comprar queijo e bolachas e gasolina para chegar até a próxima cidade.
Enquanto conversava ontem com o amigo que me apresentou Television, Felipe (vulgo Ducci) sobre esse post, ele me presenteou com as seguintes palavras: “A sensibilidade musical do Television, principalmente em Marquee Moon, é assombrosa, tudo faz sentido, sem fazer sentido nenhum, é algo que transpõe a racionalidade, passa a sensação de ir a todos lugares sem nunca ter ido a lugar nenhum. A sintonia musical é praticamente espiritual, como se um anjo, ou demônio, baixasse e composse por eles.”
A genialidade de Marquee Moon não pode ser creditada apenas à técnica, é possível ouvir a alma dos músicos em cada segundo dela. É muito mais do que só uma música, é como se eles estivessem tocando seus sentimentos, contando uma história de vida, ou simplesmente fazendo exatamente o que gostariam de estar fazendo naquele instante.

Marquee Moon, na minha humilde opinião, deve entrar entre as 10 primeiras, aliás, Television deve entrar no TOP 10 de melhor banda do mundo de todos os tempos!
O que mais me impressiona em Marquee Moon é como a música foi estruturada. O baixo e a bateria se mantém quase o tempo todo na mesma toada enquanto as guitarras duelam, mas em nenhum momento a composição se perde. Ao mesmo tempo que o improviso é o forte, não dá pra evitar a sensação de que a música foi cuidadosamente pensada, de que a banda sabe exatamente para onde está indo. Marquee Moon é a prova de que música se “fabrica”, sem que isso a torne artificial. Marquee Moon é um caos ordenado.
Ah eu já acho que ela deve ficar em 1º mesmo hahaha e White Light/White Heat em 2º. Po, a Rolling Stone consegue me deixar mais irritado que o Galvão Bueno. O lance Tom Verlaine X Richard Hell é mais ou menos assim: o Hell era a atitude punk em pessoa, e o Tom queria formar a melhor banda do mundo. Não tinha como dar certo. Beijos, Ca!